top of page

O uso de Drogas pela População Idosa

Foto do escritor: LAEG UNIRIO
LAEG UNIRIO
7 de out. de 2020
6 min de leitura

O que é droga? Qual a relação com a população idosa?


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o termo "drogas" se refere a toda substância que, pela sua natureza química tem a propriedade de afetar a estrutura e produzir alterações no funcionamento do organismo. No Brasil, a literatura sobre o consumo de drogas entre idosos é limitada e caracterizada como uma epidemia invisível, uma vez que os índices são subestimados e mal identificados (Cruz VD, 2016).

As pessoas idosas, não costumam relatar seu consumo devido à vergonha e ao medo de sofrerem preconceitos quanto ao estilo de vida e experimentam o isolamento, levando à exclusão social. Além disso, as pessoas idosas são mais vulneráveis aos efeitos iatrogênicos do consumo de drogas e a dependência devido às mudanças na composição corporal, aumento da morbidade e alta utilização de medicamentos psicoativos, sendo a dependência muitas vezes confundida com depressão ou demência.


Uso e Abuso de Medicamentos


Além do uso de vários medicamentos - que muitas vezes apresentam má interação entre si -, há ainda a questão da automedicação - que viabiliza o acontecimento de reações adversas que são, às vezes, confundidas com sintomas de enfermidades relacionadas à idade. Cada medicação deve ser avaliada de acordo o indivíduo e seu caso, não devendo assim ocorrer a automedicação. Salienta-se que mesmo em caso de um fármaco recomendado anteriormente, seu uso deve ser acompanhado e recomendado por um profissional.


Dentre os fatores de risco que podem induzir o geronto a um uso abusivo, encontram-se:


  • As condições psiquiátricas - tais como os estados ansioso

e depressivo;

  • As condições médicas;

  • Os estressores psicossociais - como viuvez, aposentadoria e outros;

  • As alterações farmacodinâmicas e;

  • As alterações farmacocinéticas.

(CASTRO; LARANJEIRA, 20-?)


Qualquer resposta prejudicial ou indesejável, não intencional, a um medicamento, que ocorre nas doses usualmente empregadas no homem para profilaxia, diagnóstico, terapia da doença ou para a modificação de funções fisiológicas.


Álcool e Outras drogas


  • álcool:

Na população idosa com problemas relacionados ao uso de substâncias, a mais comum é o álcool, com uma prevalência maior do que 70%, sendo maior do que o abuso de medicamentos. Entretanto, o consumo dessa droga tem caído na última década, em contraponto com outras drogas como a maconha (DINIZ, 2017). Entre idosos brasileiros, a prevalência do uso moderado/leve é em torno de 9,4% e o uso de risco representa 4,6%. Além disso, o uso de risco é menos frequente em idosos com problemas cardiovasculares, mas mais comum naqueles que reportam depressão (NORONHA et al., 2019). A alta prevalência do consumo de álcool, em todas as faixas etárias, deve-se também ao status legal dele (que facilita a aceitação do uso), fácil acesso, preço acessível e pela substância agir como “lubrificante social”.


  • maconha:


O uso de drogas ilícitas é menos abordado por estudos e aponta que 1% dos idosos fazem uso de cannabis. A maconha é a substância ilícita mais consumida no mundo e proporciona diminuição na ansiedade, por isso é utilizada para relaxar. Há também relatos de idosos que consomem maconha para conseguir se alimentar melhor, entretanto, deve-se frisar o cuidado para com a cannabis, visto seu efeito controverso para pessoas com algum quadro psicótico preexistente (PILLON, 2010).

Em relação ao canabidiol, ou uso da “maconha medicinal”, estudos apontam a melhora na qualidade do sono dos idosos e o alívio de dores crônicas devido ao seu potencial anti-inflamatório e analgésico. Novos estudos têm trazido a oportunidade de tratamento de Alzheimer e Parkinson também com o uso medicinal de componentes da cannabis (CAMARGO-FILHO, et al, 2019).


  • tabaco:

Em relação ao consumo de tabaco pela população idosa, poucos têm pretensão de cessar o consumo. Com isso, os profissionais de saúde colocam como uma “fonte de prazer” válida, em vista da elevada idade. A prevalência dessa substância é de 12,2% nessa população e, segundo os pesquisadores, a tendência é um aumento nessa taxa diante da longevidade da população. O cigarro, por muitos, é conhecido como uma droga social, vide os famosos “fumódromos” e os amigos que fumam junto com o sujeito e que agem como reforçadores sociais do tabagismo. Porém, é uma droga que gera vários problemas de saúde, inclusive a morte precoce. Ainda sobre o ponto social, é interessante pensar sobre gênero e tabagismo: mais fumantes idosos são do sexo masculino devido a fatores históricos e socioculturais (ZAITUNE, 2012).


  • psicodélico:


Boa parte das pessoas que passaram pelo momento de popularização e posterior demonização de psicodélicos já estão idosas, o que coincidiu também com a Renascença da Ciência Psicodélica e da discussão dos potenciais terapêuticos desse psicoativos diantes de sofrimentos psiquiátricos. Os dados sobre o uso de psicodélicos, especialmente por idosos, ainda são muito escassos devido ao status legal dessa classe de psicoativos e pelo tabu em torno do uso. Visto o sofrimento psíquico que vários idosos enfrentam e o alto índice de suicídio nessa população, profissionais clamam para que psicodélicos sejam levados a sério, especialmente em um momento em que diversos estudos comprovam a eficácia dos mesmos para diversos tipos de sofrimento mental (MUTTONI, ARDISSINO & JOHN, 2019). Além disso, é importante lembrar que existem idosos saudáveis e que vários outros motivos além do sofrimento psiquiátrico podem levá-los ao uso de substâncias psicodélicas, mas carece de dados científicos.


Atendimento e Tratamento


O atendimento à população idosa que faz uso de algum tipo de droga, seja lícita ou ilícita, ocorre principalmente em emergências hospitalares, e, por isso, é tão importante o preparo dos profissionais da saúde desses locais, já que muitas vezes os efeitos observados pelo uso dessas drogas mimetizam doenças comumente relatadas em faixas etárias mais avançadas, como a depressão e a demência. (OLIVETO).

As Redes de Atenção Psicossocial (RAPS) visam ajudar a comunidade que utiliza álcool ou outras drogas por meio de um espaço para diálogo e interações, contribuindo para a qualidade de vida. (LIMA, 2020) No Brasil, há atualmente cerca de 2.457 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em todo o país. (OLIVETO).

O tratamento indicado para esses casos inclui a possibilidade de terapias farmacológicas e não farmacológicas, como mudanças no estilo de vida e formação de uma rede de apoio, incluindo práticas religiosas, apoio familiar associado à redes de atenção e internação psiquiátrica (utilizada como última alternativa). (LIMA, 2020).

É importante também lembrar que o tratamento deve ser feito de forma individualizada, devido às condições da própria idade avançada, o uso de polifarmácia (vários medicamentos), a condição econômica e a preferência de tratamento. (DINIZ, 2017).


Referências


  • Abuso de medicamentos ameaça a vida de idosos. O Pantaneiro. 17 jun. 2012. Disponível em: <https://www.opantaneiro.com.br/noticias/abuso-de-medicamentos-ameaca-a-vida-dos-idosos/108203/>. Acesso em: 04 out. 20.

  • BYOCK, Ira. Taking psychedelics seriously. Journal of palliative medicine, v. 21, n. 4, p. 417-421, 2018.

  • CAMARGO-FILHO, Marcelo Ferrari de Almeida. et al. Canabinóides como uma nova opção terapêutica nas doenças de Parkinson e de Alzheimer: uma revisão de literatura Rev Bras Neurol. 55(2):17-32, 2019. Disponível em <http://docs.bvsalud.org/biblioref/2019/08/1010037/revista552-v21-artigo3.>

  • CASTRO, Luis André; LARANJEIRA, Ronaldo. Abuso de Drogas no Idoso. [20-?]. Disponível em: <https://www.uniad.org.br/wp-content/uploads/2009/02/Abuso-de-Drogas-no-Idoso.pdf>. Acesso em: 01 out. 2020.

  • Cruz VD. et al. Consumo de drogas entre pessoas idosas e a redução de danos: reflexão a partir da complexidade. EEAN.edu.br, [S. l.], p. 1-6, 4 maio 2016. DOI DOI: 10.5935/1414-8145.20160076. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ean/v20n3/1414-8145-ean-20-03-20160076.pdf. Acesso em: 2 out. 2020.

  • DINIZ, A. et al. Uso de substâncias psicoativas em idosos: uma revisão integrativa. Psicologia: teoria e prática, São Paulo, v. 19, n. 2, 1 ago. 2017.

  • FUJITA JR., Luiz. Abuso de medicamentos - Entrevista. Drauzio. Disponível em: <https://drauziovarella.uol.com.br/entrevistas-2/abuso-de-medicamentos-entrevista/>. Acesso em: 01 out. 2020.

  • HAN, B. H.; SHERMAN, S.; MAURO, P. M.; MARTINS, S. S.; ROTENBERG, J.; PALAMAR, J. J. Demographic trends among older cannabis users in the United States, 2006–13. Taking Psychedelics Seriously. Addiction, 112(3), 516-525. 2017. Disponível em <https://www.liebertpub.com/doi/full/10.1089/jpm.2017.0684>

  • LIMA, D.W.C. et al. Os significados e as relações dos idosos com as drogas. Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool Drog., RN, p. 132-139, set./2020.

  • MUTTONI, Silvia; ARDISSINO, Maddalena; JOHN, Christopher. Classical psychedelics for the treatment of depression and anxiety: a systematic review. Journal of affective disorders, v. 258, p. 11-24, 2019.

  • NORONHA, Beatriz Prado et al. Padrões de consumo de álcool e fatores associados entre idosos brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde (2013). Ciência & Saúde Coletiva, v. 24, p. 4171-4180, 2019.

  • OLIVETO, Paloma. Falta assistência para dependentes químicos na terceira idade: Especialistas lamentam falta de políticas públicas e profissionais de saúde preparados para lidar com o abuso de álcool e drogas durante a velhice. Disponível em: http://especiais.correiobraziliense.com.br/falta-assistencia-para-dependentes-quimicos-na-terceira-idade. Acesso em: 1 out. 2020.

  • PILLON, Sandra Cristina; et al. Perfil dos idosos atendidos em um centro de atenção psicossocial: álcool e outras drogas. Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro , v. 14, n. 4, p. 742-748, Dec. 2010 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452010000400013&lng=en&nrm=iso>.

  • ZAITUNE, Maria Paula do Amaral; et al . Fatores associados ao tabagismo em idosos: Inquérito de Saúde no Estado de São Paulo (ISA-SP). Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro , v. 28, n. 3, p. 583-596, Mar. 2012 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2012000300018&lng=en&nrm=iso>.


Produzido por:


  • Cristiane Holanda Costa

  • Johnny Lima Brandão

  • Keyla Taiani Terra Assunção

  • Maria Eduarda Nascimento de Souza

  • Monique Vignado Ortolan

  • Tatiana da Silva Sempé

 
 
 

Comentários


Quer receber nossas novidades no seu email?

Inscreva-se no nosso newsletter!

  • instagram
  • facebook
  • youtube

©2020 por Liga Acadêmica de Enfermagem em Gerontologia - LAEG. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page